O Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano em decisão unânime, dando sequência ao ciclo de calibragem. A postura do comitê nesta ata pareceu transparecer um sentimento de incerteza muito mais intenso — e não necessariamente a necessidade de endurecer a avaliação da política monetária. Foram levantados vários cenários alternativos para a trajetória à frente.
Mesmo assim, há o diagnóstico de que o cenário se deteriorou de forma inequívoca. A inflação cheia superou o limite superior da meta na última leitura, as medidas subjacentes voltaram a acelerar e as expectativas se desancoraram adicionalmente, sobretudo para 2028 — e a projeção do Copom no horizonte relevante (4º tri/27) subiu de 3,5% para 3,7%.

Sinalizar incerteza não é o mesmo que endurecer
A decisão por sinalizar incerteza, e não endurecimento, está associada ao tratamento dos choques de oferta. Diferentemente da 278ª — que reafirmara o compromisso de combater os efeitos secundários do choque do petróleo —, a 279ª recomenda explicitamente não reagir por inteiro a essas variações, dada a magnitude das incertezas (Oriente Médio, El Niño).
Há uma seção inédita e extensa na ata tratando dos cenários alternativos simulados pelo Copom, em que é discutido o trecho que havia ficado confuso no comunicado:
A conclusão dessa seção é, basicamente, que o Copom entende que poderia convergir mais rapidamente a inflação à meta se optasse por trajetórias da Selic que não estão sendo precificadas pelo mercado — por exemplo, um choque de juros —, mas sob um alto custo de “volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos”. De forma mais vulgar: o Copom diz que não usará a opção nuclear contra infantaria.
Por que o Copom trouxe essa comunicação? A princípio, parece uma tentativa de tranquilizar o mercado, indicando que as precificações do Focus são relativamente realistas e reforçando que as condições atuais estão mergulhadas em incerteza — ao passo que uma política monetária mais dura geraria uma desinflação muito mais cara do que o necessário. Daí a menção à prática de “olhar através” de choques de oferta.
O comitê não tirou da mesa novos cortes este ano, justamente em virtude dessa forte incerteza. Ao mesmo tempo, se as expectativas do Focus ainda geram projeções do IPCA acima da meta, fica implícito que o ciclo de cortes pode estar muito perto do fim — se já não tiver acabado.
Cenário e fatores de risco
A ata endereça a reaceleração da atividade econômica no primeiro trimestre, inclusive com papel maior dos setores cíclicos, mas manteve o parágrafo que avalia que, apesar disso, a política monetária tem garantido a moderação gradual da economia. A contraposição dessas duas visões nos soa ligeiramente contraditória.
O balanço de riscos agora tem assimetria altista, com a incorporação de um novo risco ligado à política fiscal. Além dos choques do petróleo, há menção aos riscos inflacionários do El Niño para a agricultura e a energia.
Cenário externo
A avaliação externa permanece deteriorada. O comitê destacou a indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos no Oriente Médio e os efeitos já materializados sobre as condições financeiras globais, que seguem elevando a volatilidade de ativos e commodities. A condução da política econômica nos EUA permanece um vetor adicional de incerteza.
Atividade e mercado de trabalho
Os indicadores mostram aceleração no 1T26, com setores mais cíclicos retomando papel relevante. Ainda assim, o comitê lê o quadro como moderação do crescimento e aponta a desaceleração do crédito — em especial o não direcionado — como evidência da transmissão monetária. No emprego, o diagnóstico estrutural permanece: desemprego em mínimas históricas e rendimentos reais acima da produtividade.
Inflação e expectativas
As leituras anteriores aos conflitos vinham mostrando arrefecimento, favorecidas por câmbio apreciado e commodities benignas. As últimas divulgações, ao consumidor e ao produtor, trouxeram sinais claros dos efeitos do Oriente Médio, acima do esperado. A Focus segue desancorada em todos os horizontes — 5,30% para 2026 (contra 4,9% na ata 278) e 4,10% para 2027 (contra 4,0%).
Riscos de alta
- Desancoragem das expectativas por período mais prolongado, com efeitos de segunda ordem de choques de oferta (petróleo) e climáticos;
- Maior resiliência da inflação de serviços, por um hiato do produto mais positivo;
- Políticas externa e interna com impacto inflacionário acima do esperado (ex.: câmbio mais depreciado);
- Estímulos à demanda, sobretudo ao consumo, elevando a atividade acima do produto potencial.
Riscos de baixa
- Desaceleração da atividade doméstica mais acentuada que a projetada;
- Desaceleração global mais pronunciada (choques de comércio e de petróleo);
- Recuo nos preços das commodities, com efeito desinflacionário.
Revisão das projeções de inflação
No cenário de referência, a deterioração de 2026 concentra-se nos preços livres (de 4,5% para 5,3%), enquanto os administrados recuam à margem (de 4,8% para 4,7%). Premissas: câmbio a R$ 5,10/US$ e petróleo seguindo a curva futura por seis meses.

O saldo: a revisão para cima, somada à desancoragem para 2028, comprime o espaço para cortes. Ainda assim, a comunicação desta ata ficou posicionada em território dovish, mais próxima do neutro — especialmente pelas seções em torno do corte de juros e pela manutenção do parágrafo sobre desaceleração da economia.
*Este material foi preparado pela Ghia Multi Family Office (“Ghia MFO”) e tem cunho meramente informativo, não constituindo consultoria ou aconselhamento legal de qualquer natureza. Embora as informações tenham sido obtidas de fontes consideradas confiáveis, nenhuma garantia ou responsabilidade, expressa ou implícita, é feita a respeito da exatidão, fidelidade e/ou totalidade das informações. A Ghia MFO emprega os melhores esforços para assegurar que as informações, opiniões, estimativas e projeções aqui contidas estejam atualizadas no momento de sua elaboração, mas não responde por alterações decorrentes de eventos futuros. Este material não constitui e não deve ser interpretado como solicitação de compra ou venda, oferta, convite, análise de valor mobiliário ou recomendação de qualquer ativo financeiro ou investimento, e não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Os interessados devem procurar aconselhamento financeiro conforme seus interesses antes de tomar qualquer decisão de investimento, sendo esta de sua exclusiva responsabilidade.