Mar (ainda) agitado à frente
O primeiro semestre de 2026 chega ao fim e, com ele, também o conflito que marcou a pauta dos últimos meses. O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, anunciado em junho, ainda que sobre bases frágeis, permitiu o início da normalização do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz, e o petróleo devolveu boa parte do prêmio acumulado desde o início da guerra: o Brent recuou cerca de 20%, voltando a negociar próximo de US$ 70 o barril, patamar que não víamos desde antes do conflito. O movimento não ficou restrito à energia, o ouro e commodities agrícolas e metálicas também cederam, configurando um vetor desinflacionário relevante para a economia global e reduzindo, na margem, o risco geopolítico que dominou os últimos meses.
O alívio, porém, não chegou às curvas de juros. Nos Estados Unidos, o grande evento do mês foi a estreia de Kevin Warsh à frente do Federal Reserve. Em sua primeira reunião, o novo presidente adotou discurso duro e combativo à inflação, reafirmando a entrega da meta de 2% como a principal função da instituição (meta que não é cumprida desde 2021). Warsh também promoveu mudanças na comunicação: comunicados drasticamente mais enxutos e o abandono do forward guidance, deixando o mercado com menos visibilidade sobre os próximos passos da política monetária. Com o discurso mais duro do novo presidente os investidores passaram a precificar mais de uma alta de juros ainda neste ano, com abertura da parte curta da curva e fechamento parcial na ponta longa, levando a uma valorização de mais de 2% do dólar no mês.
Nossa avaliação é de que há certo exagero nessa reprecificação. O aperto nas expectativas veio do discurso, um choque de credibilidade natural de quem assume o cargo com a inflação acima da meta, e não de uma piora dos fundamentos. A atividade americana segue saudável, mas dá sinais de moderação gradual: a geração de vagas de junho, de 57 mil, veio bem abaixo do consenso de 115 mil, e o consumo das famílias foi revisado para baixo no primeiro trimestre. Ao mesmo tempo, boa parte da pressão inflacionária recente veio de fatores exógenos ligados ao petróleo, que agora tendem a ceder. Por isso, mais de uma alta efetiva de juros não é o nosso cenário-base.
Nas bolsas, junho foi um mês de transição de temas. O S&P 500 recuou 1,1% e o Nasdaq, 2,8%, enquanto o Russell 2000, índice que representa empresas menores e mais ligadas à economia doméstica, subiu 3,6%. Após meses de forte concentração nas grandes empresas de tecnologia, vimos uma realização de lucros no setor, que corrige exageros pontuais sem abandonar a tese estrutural de inteligência artificial. Prova disso é que os emergentes asiáticos, que abrigam peças-chave dessa cadeia, como TSMC em Taiwan e Samsung na Coreia do Sul, seguiram apresentando desempenho positivo, enquanto os latino-americanos, mais uma vez, ficaram de fora do movimento.
No Brasil, tivemos mais um mês difícil para os ativos de risco. O Ibovespa recuou cerca de 1%, o IFIX caiu 1,2%, a curva de juros voltou a abrir, pressionando os índices de renda fixa, e o real desvalorizou 2,4% frente ao dólar. O único destaque positivo ficou com o crédito privado, beneficiado pelo fechamento dos spreads e pelo fluxo contínuo de recursos para ativos atrelados ao CDI. O investidor estrangeiro, que sustentou os ganhos da bolsa no início do ano, retirou aproximadamente R$ 9 bilhões no mês, levando o saldo acumulado de 2026 para menos da metade do pico registrado em abril.
Na raiz desse desempenho está a deterioração qualitativa da inflação. Os núcleos rodam entre 0,3% e 0,4% ao mês, com índice de difusão em torno de 60%, dinâmica incompatível com a meta e cada vez menos explicada pelo choque do petróleo. A atividade, por sua vez, segue impulsionada pelos estímulos fiscais e parafiscais do governo em ano eleitoral: a expectativa é de um PIB crescendo próximo de 2% em 2026, sendo aproximadamente metade disso fruto direto desses estímulos. Nesse cabo de guerra, sobra pouco espaço para o Banco Central: a Selic, que começou o ano em 15% com expectativa de encerrar 2026 próxima de 12%, hoje deve parar em torno de 14%, depois de a curva chegar a precificar, no auge do estresse de junho, estabilidade e até altas adicionais.
Além disso, entramos nos meses decisivos do calendário eleitoral, com as convenções partidárias marcadas para o período entre 20 de julho e 15 de agosto. O último mês foi marginalmente pior para a oposição, com disputas internas no PL expostas publicamente. Lula segue à frente nas pesquisas de segundo turno, mas carrega rejeição elevada, e o quadro permanece indefinido, inclusive quanto ao nome que representará a oposição. Fato é que a partir de agora a corrida eleitoral deve influenciar cada vez mais a performance dos ativos domésticos. Nesse sentido, vale olhar para a experiência recente dos nossos vizinhos: no Chile, na Colômbia e no Peru, os juros longos caíram fortemente antes mesmo do resultado das urnas, à medida que o mercado passou a atribuir maior probabilidade a agendas pró-mercado. Por exemplo, os juros de dez anos na Colômbia, que, assim como o Brasil, carregavam um prêmio de risco relevante, recuaram de 14,5% para 11,5% com a vitória da direita nas eleições. Hoje, vemos uma assimetria interessante também nos ativos brasileiros: a curva de juros embute um cenário bastante pessimista, enquanto o câmbio, sustentado principalmente pelo diferencial de juros, parece refletir um cenário mais benigno.
Encerramos, assim, um semestre de mar agitado, marcado por um conflito geopolítico de grandes proporções, choques nos preços das commodities, mudança de comando no Fed e fortes reprecificações nas curvas de juros. E não esperamos águas calmas à frente: lá fora, as atenções se voltam aos próximos passos da política monetária americana sob novo comando; por aqui, a maré eleitoral começa a subir e tende a ditar, cada vez mais, o comportamento dos ativos. Em travessias como essa, reforçamos nossa convicção de que diversificação, disciplina e visão de longo prazo seguem sendo os melhores instrumentos para a construção e a proteção dos portfólios. Seguimos atentos aos desdobramentos do cenário e prontos para eventuais ajustes na alocação.
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