O que um livro escrito por um teórico de Relações Internacionais em 1996 tem a ver com os conflitos recentes no Irã, com a relevância dos ETFs especializados no setor aeroespacial e de defesa e com o desempenho desses veículos?
A relação entre transformações na condução de conflitos e o desempenho do setor de defesa pode ser analisada à luz da literatura de estratégia militar. Um dos trabalhos mais influentes nesse campo é Bombing to Win, de Robert Pape, que examina diversas campanhas de bombardeio do século XX para entender em quais condições o poder aéreo consegue efetivamente forçar uma mudança de comportamento em seus adversários.
Punição × negação
A principal conclusão do autor é que campanhas aéreas raramente produzem resultados quando baseadas em estratégias de “punição” — isto é, quando procuram pressionar governos adversários por meio da destruição de centros urbanos ou infraestrutura civil. Em contraste, Pape argumenta que o poder aéreo tende a ser mais eficaz quando utilizado em estratégias de “negação”, cujo objetivo é impedir que o adversário alcance seus objetivos militares no campo de batalha.

Essa interpretação implica uma mudança importante no papel do poder aéreo: em vez de ser um instrumento autônomo capaz de vencer guerras por meio da destruição econômica ou do sofrimento civil, ele funciona principalmente como um multiplicador de força para operações militares, reduzindo a capacidade do adversário de sustentar suas forças e atingir seus objetivos estratégicos.
Conflitos contemporâneos oferecem exemplos que dialogam com essa lógica. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 evidenciou a importância de atacar infraestrutura militar crítica, como depósitos de munição, centros logísticos e posições de artilharia. Em paralelo, a proliferação de drones e munições guiadas ampliou a capacidade de identificar e atingir ativos militares específicos com maior eficiência. Ao mesmo tempo, o aumento da ameaça de mísseis e foguetes reforçou a necessidade de sistemas de defesa capazes de proteger infraestrutura crítica — como exemplificado pelo Domo de Ferro utilizado em Israel.
Da doutrina ao orçamento
Do ponto de vista econômico, essas dinâmicas ajudam a explicar a direção recente dos gastos militares globais. Governos têm ampliado investimentos em tecnologias que permitem identificar, atingir e neutralizar ativos militares com maior precisão, bem como em sistemas voltados à defesa contra ameaças similares. Isso inclui sensores, sistemas de vigilância, radares, defesa antimíssil, plataformas de ataque de precisão e tecnologias de integração de dados no campo de batalha.
Empresas como Lockheed Martin, RTX Corporation, Northrop Grumman e L3Harris Technologies ocupam posições centrais nesses segmentos, fornecendo desde sistemas de ataque e defesa aérea até sensores e soluções de comando e controle utilizados por forças armadas modernas. Na distribuição global da receita com venda de armamentos entre 2015 e 2024, os Estados Unidos aparecem de forma isolada na liderança, seguidos a distância considerável por China e Reino Unido.
Como isso aparece nos portfólios
No mercado financeiro, essa exposição pode ser observada em ETFs especializados no setor aeroespacial e de defesa, como o iShares U.S. Aerospace & Defense ETF, o SPDR S&P Aerospace & Defense ETF e o Invesco Aerospace & Defense ETF. Esses veículos concentram empresas diretamente beneficiadas pelo aumento estrutural dos gastos militares e pela crescente demanda por tecnologias associadas à condução de operações militares modernas.
Desde janeiro de 2024, os índices setoriais de defesa superaram consistentemente seus benchmarks mais amplos: o STOXX Aerospace and Defence acumulou variação bem superior à do STOXX 600, e o mesmo padrão se repete nas comparações entre o MSCI AC Aerospace and Defence e o MSCI AC World, e entre o S&P Aerospace and Defence e o S&P 500.
A leitura de fundo: a literatura estratégica oferece uma lente útil para compreender tendências de longo prazo no setor. Mudanças na forma como conflitos são conduzidos tendem a alterar as prioridades de investimento militar dos governos, influenciando diretamente a demanda por determinados sistemas e tecnologias.
A análise de Robert Pape sugere que, em cenários de conflito contemporâneo, a capacidade de negar ao adversário o sucesso militar no campo de batalha permanece um elemento central da coerção estratégica — e um fator relevante para entender a direção dos investimentos na indústria global de defesa.
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