Carta mensal Ghia – Agosto 2026
Enquanto uns choram, outros vendem lenço
Há um velho ditado que muito provavelmente você já ouviu dos seus pais ou avós
“enquanto uns choram, outros vendem lenço” . Geralmente, isso não tem grande
relação com a dinâmica dos ciclos econômicos e geopolíticos, mas no último mês,
essa pílula de sabedoria popular capturou com excelência as movimentações do
período . Enquanto boa parte das carteiras globais enfrentou um ambiente de
volatilidade acentuada, realização de lucros no setor de tecnologia e incertezas
macroeconômicas nos principais mercados desenvolvidos, polos específicos do
mapa financeiro global conseguiram capitalizar o momento e entregar performance
superior às geografias que têm impulsionado os retornos no último trimestre.
O grande vetor dessa dicotomia em julho foi o realinhamento de preços (repricing ) e
a rotação de capital diante da escalada de tensões geopolíticas . Nos Estados
Unidos, o aperto nos rendimentos dos títulos públicos do Tesouro pesou fortemente
sobre o setor de tecnologia e sobre as empresas de menor capitalização, levando o
índice Nasdaq e o Russell 2000 a perdas expressivas no mês, enquanto o S&P 500
encerrou praticamente estável graças a uma temporada de resultados robusta, com
surpresas tanto em receita quanto lucro por ação (nessa metáfora, talvez os Estados
Unidos surjam como uma terceira figura : nem chora, nem vende lenço . É a figura que
consola quem está chorando) . Na Ásia, o mercado japonês sentiu um duro ajuste
técnico e de posicionamento com o recuo do Nikkei 225 , acompanhando a
liquidação acentuada registrada nos mercados emergentes advindos da realização
de lucros no setor de semicondutores .
Por outro lado, os ativos vinculados a commodities , energia e setor financeiro
assumiram de forma clara o papel de "vendedores de lenços" nesse cenário . Na
Europa e no Reino Unido, o índice STOXX 600 também avançou de forma
consistente . A presença marcante de companhias dos setores de energia e defesa
encontrou sustentação na alta das commodities geopolíticas, aliada aos volumes
recordes de programas de recompra de ações (buybacks ) e ao elevado retorno via
dividendos pagos pelas corporações da região . Paralelamente, em um ambiente de
enfraquecimento do dólar global e maior aversão ao risco, o ouro conseguiu
finalmente cumprir seu papel clássico de reserva de valor ao encerrar o mês em
terreno positivo .
A nível Brasil também podemos fazer a mesma comparação . O desempenho do
mercado brasileiro ao longo do mês de julho de 2026 foi marcado por uma clara
divergência entre diferentes classes de ativos locais . Enquanto as companhias de
maior liquidez capturaram um fluxo expressivo de capital, os setores mais expostos à
economia doméstica, os fundos imobiliários e a indústria de fundos multimercados
enfrentaram um período de retornos pressionados e maior volatilidade . A ponta
positiva do mercado local foi liderada pelas companhias de grande capitalização
integradas ao Ibovespa, que avançou 3,47% no período .
Esse movimento foi impulsionado pela atração de capital estrangeiro direcionado a
empresas dos setores financeiro e de commodities, em um ambiente favorecido
pela apreciação do real, que levou o dólar a registrar uma queda de - 1,92 % . No
âmbito da renda fixa, o CDI acumulado no período ficou em 1,22% . Os títulos públicos
atrelados à inflação e os prefixados também fecharam o mês no campo positivo,
acompanhando a oscilação das curvas de juros favorecida pelos dados de inflação
mais benignos . Tais dados deixam as decisões do COPOM mais suaves e trouxeram
um alívio na parte curta da curva, enquanto a longa continuou desancorada .
Em contrapartida, os ativos ligados diretamente ao consumo interno e a estratégias
mais complexas apresentaram retornos negativos no mês . O índice de Small Caps
recuou - 0 ,77% , evidenciando um comportamento mais seletivo por parte do
investidor, que optou por alocar capital na liquidez das blue chips em detrimento das
empresas de menor porte voltadas ao mercado doméstico . Na mesma direção, os
fundos imobiliários encerraram em leve queda, com o IFIX registrando - 0 ,31% ,
enquanto a indústria de fundos multimercados seguiu impactada pelos ajustes de
posicionamento em um cenário de inflexão nos preços dos ativos globais e locais .
Em suma, o mês de julho expôs como a dinâmica internacional de realinhamento de
preços e rotação de capital encontra eco direto na precificação dos ativos no Brasil .
Enquanto o mercado global penalizou a concentração em grandes empresas de
tecnologia, o ambiente doméstico refletiu exatamente essa seletividade : o capital
estrangeiro buscou a liquidez das grandes companhias exportadoras e do setor
financeiro brasileiro, ao mesmo tempo em que adotou cautela em relação às small
caps e aos ativos dependentes da economia interna . Diante desse panorama de
divergência entre mercados e setores, a estratégia de gestão permanece focada na
construção de portfólios resilientes . Mantemos a alocação tática posicionada para
capturar o rendimento atrativo da renda fixa e o fluxo direcionado a ativos globais e
locais de valor, preservando a liquidez e a flexibilidade para alocar capital em
oportunidades que surjam dessas assimetrias do mercado .
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