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6 de novembro de 2026 9 min de leitura

Midterms 2026: o que mudou no Congresso americano e como o mercado reagiu

Os democratas assumiram o controle das duas casas do Congresso americano, o S&P 500 subiu 1,6% e devolveu o ganho no dia seguinte. O que saiu das urnas e o que a história diz sobre a bolsa.

Os democratas conquistaram o controle das duas casas do Congresso americano nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro, e isso muda o espaço de manobra do presidente Donald Trump para a segunda metade do mandato. O mercado reagiu em dois tempos: o S&P 500 subiu 1,6% no dia 4 e recuou próximo de 4% no dia 5.

Nesta nota, a Ghia Family Office conta o que saiu das urnas, explica como esse sistema funciona e mostra o que a história diz sobre a bolsa depois das midterms. Algumas definições políticas importantes são fruto do evento e podem trazer impactos para o mercado e para o preço dos ativos, então vale começar pelo básico.

O que são as midterms?

As eleições de meio de mandato (midterm elections) recebem esse nome porque acontecem exatamente na metade do mandato presidencial. O Congresso, por sua vez, tem ciclos eleitorais próprios, estabelecidos pela Constituição de 1787. Os 435 membros da Câmara dos Representantes são eleitos para mandatos de dois anos, enquanto os senadores cumprem mandatos de seis anos, organizados em três grupos. Por isso, aproximadamente um terço das cadeiras do Senado é renovado a cada dois anos.

Por que a Câmara e o Senado têm prazos diferentes

Os Founding Fathers, responsáveis pela elaboração da Constituição, buscaram criar um sistema que equilibrasse a representatividade popular com a estabilidade institucional. Daí os mandatos de durações diferentes:

  • Câmara dos Representantes, mandatos de 2 anos. A ideia era manter os deputados próximos da população, permitindo que fossem substituídos com frequência caso a opinião pública mudasse. O prazo também representava um meio-termo entre as eleições anuais, comuns em alguns estados na época, e mandatos mais longos. James Madison, no Federalist nº 52, defendeu eleições frequentes como forma de manter uma relação próxima entre os representantes e seus eleitores.
  • Senado, mandatos de 6 anos. O objetivo era garantir maior estabilidade, continuidade e tempo para a deliberação de decisões. Para evitar mudanças bruscas na composição da Casa, os mandatos foram organizados em três grupos, de modo que apenas um terço das cadeiras seja renovado a cada dois anos. No Federalist nº 62, Madison destacou a importância dessa estrutura para reduzir a influência de oscilações momentâneas da opinião pública e favorecer decisões mais ponderadas.

Por que o Congresso pesa tanto nas decisões do país

O Congresso americano exerce influência direta sobre algumas das principais decisões econômicas e políticas do país. Cabe a ele aprovar o orçamento federal, definir impostos, autorizar os níveis de gasto público e conduzir boa parte da agenda legislativa. Na prática, projetos de lei relevantes, investimentos em infraestrutura, mudanças na legislação tributária e programas de governo dependem de sua aprovação. O Senado também confirma as principais nomeações presidenciais, incluindo secretários de Estado, juízes federais e integrantes de agências reguladoras.

Só que aprovar medidas importantes exige mais do que uma simples maioria. No Senado, a maior parte das propostas legislativas precisa superar a barreira de 60 votos, de um total de 100 senadores, para encerrar um possível bloqueio por meio do filibuster e avançar para a votação final. O filibuster é um mecanismo que permite aos parlamentares prolongar o debate sobre um projeto de lei e, na prática, impedir ou atrasar sua votação, e o procedimento para encerrá-lo se chama cloture. Já para derrubar um veto presidencial, são necessários dois terços dos votos, tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado.

O que muda quando o partido do presidente perde a maioria

Se o partido do presidente perde a maioria em uma ou nas duas casas, sua capacidade de aprovar novas leis e avançar com parte de sua agenda fica significativamente limitada. Mesmo que a oposição conquiste o controle de todo o Congresso, ainda terá de lidar com o poder de veto do presidente, cuja derrubada exige uma maioria qualificada de dois terços em ambas as casas, um obstáculo difícil de superar.

O resultado das midterms, portanto, não determina apenas quem terá maioria no Legislativo, mas também o espaço de manobra do governo para implementar suas propostas até o fim do mandato. É justamente por isso que o controle das duas casas ganha tanta importância nos dois últimos anos de um mandato presidencial.

O que saiu das urnas em 3 de novembro

As eleições trouxeram uma vitória expressiva para o Partido Democrata, que conquistou o controle das duas casas do Congresso americano, até então dominadas pelos republicanos. O resultado representa uma derrota importante para o presidente Donald Trump, que passa a enfrentar um Legislativo de maioria oposicionista na segunda metade de seu mandato.

No Senado, os democratas garantiram pelo menos 54 cadeiras, contra 44 dos republicanos, considerando os dois senadores independentes alinhados aos democratas. Duas disputas, no Alasca e no Mississippi, ainda estavam em aberto e podem ampliar a vantagem democrata para 56 a 44. Na Câmara dos Representantes, os democratas conquistaram pelo menos 30 cadeiras que eram ocupadas por republicanos, revertendo a maioria que o partido mantinha antes das eleições. A apuração das disputas restantes ainda estava em andamento.

“Gráfico de barras com os resultados em andamento na Câmara dos Representantes dos EUA nas eleições de meio de mandato de 2026: democratas 228 cadeiras, republicanos 139 e 68 aguardando resultado, de um total de 435. A maioria é de 218.”

Com essa nova configuração, os democratas passam a ter maior poder para influenciar a agenda legislativa, fiscalizar o governo e dificultar a aprovação de propostas da administração Trump. Na prática, o presidente terá menos espaço para avançar suas prioridades sem negociar com a oposição, especialmente em temas que dependem de aprovação do Congresso.

A reação do mercado: um dia de alta e um de queda

A reação inicial foi bastante positiva. No dia 4 de novembro, após a confirmação da vitória democrata e da mudança de controle das duas casas do Congresso, o S&P 500 avançou 1,6%, registrando seu maior ganho diário em três meses. A redução da incerteza política e a perspectiva de maior equilíbrio de forças em Washington contribuíram para melhorar o apetite por risco dos investidores.

O movimento, porém, perdeu força rapidamente. No pregão seguinte, em 5 de novembro, o S&P 500 recuou próximo de 4%, devolvendo os ganhos da sessão anterior. Parte dessa reversão esteve relacionada às preocupações com o avanço da regulação sobre inteligência artificial, especialmente diante da possibilidade de restrições à construção de data centers e à expansão da infraestrutura necessária para sustentar o crescimento do setor. A queda, no entanto, não foi explicada exclusivamente pelo resultado eleitoral ou pelas incertezas regulatórias: o mercado também reagiu a resultados e perspectivas corporativas abaixo das expectativas, especialmente no setor de tecnologia.

Por que a inteligência artificial entrou na conta

A vitória dos democratas trouxe uma nova fonte de preocupação para o setor de inteligência artificial: a possibilidade de maior escrutínio regulatório sobre a expansão da infraestrutura necessária ao desenvolvimento da tecnologia. O principal foco está na construção de data centers, que demandam grandes volumes de energia e investimentos, além de envolverem questões relacionadas ao consumo de água, custos de eletricidade e impactos sobre as comunidades locais.

Com o avanço democrata no Congresso e em estados estratégicos para essa indústria, como Texas e Geórgia, aumentam as preocupações com possíveis revisões de incentivos fiscais, exigências adicionais para licenciamento e até restrições à construção de novos data centers. Esse cenário pode elevar os custos dos projetos, provocar atrasos e afetar empresas diretamente expostas à expansão dessa infraestrutura. O receio dos investidores, portanto, não está necessariamente na desaceleração da demanda por inteligência artificial, mas na possibilidade de que sua infraestrutura cresça em um ritmo mais lento e com custos maiores.

O que a história diz sobre a bolsa depois das midterms

Apesar das preocupações de curto prazo, o histórico das eleições de meio de mandato oferece uma perspectiva mais construtiva para o mercado acionário. Nas 19 eleições realizadas desde 1950, o S&P 500 apresentou valorização em todas as ocasiões nos 12 meses seguintes, com retorno médio de 15,6%, significativamente acima da média de 9,4% observada nos períodos de 12 meses desde 1950.

O comportamento positivo também aparece em horizontes mais curtos: o índice subiu em 17 das 19 eleições nos três meses seguintes, e em todas as 19 ocasiões nos períodos de seis e 12 meses.

“Gráfico de barras com a variação do S&P 500 nos 12 meses seguintes a cada uma das 19 eleições de meio de mandato desde 1950, em %: 1950: 18, 1954: 33, 1958: 11, 1962: 26, 1966: 13, 1970: 12, 1974: 21, 1978: 6, 1982: 21, 1986: 2, 1990: 24, 1994: 27, 1998: 21, 2002: 16, 2006: 10, 2010: 3, 2014: 5, 2018: 12, 2022: 15. Todas as altas. Média de 15,6%, contra 9,4% da média dos períodos de 12 meses desde 1950.”

Outro dado que chama atenção é que o desempenho não dependeu necessariamente de qual partido manteve ou perdeu o controle do Congresso. Quando o partido do presidente perdeu a maioria, o retorno médio nos 12 meses seguintes foi de 13,3%. Quando manteve o controle, a valorização média foi ainda maior, de 17,2%. Os resultados também foram positivos tanto quando republicanos perderam a maioria (14,4%) quanto quando democratas passaram por essa situação (12,3%).

“Gráfico de barras com a alta média do S&P 500 em 12 meses após as midterms, por resultado: partido do presidente perdeu a maioria (8 eleições), 13,3%; não perdeu a maioria (11), 17,2%; republicano perdeu a maioria (4), 14,4%; democrata perdeu a maioria (4), 12,3%.”

A leitura: o que pesa depois da eleição

O mercado tende a antecipar parte das incertezas políticas antes das eleições. Quando o resultado se torna conhecido, mesmo que não seja necessariamente o preferido dos investidores, há maior clareza sobre o ambiente político e regulatório, o que reduz parte do prêmio de risco associado à indefinição. A partir daí, o desempenho das bolsas tende a voltar a responder principalmente aos fundamentos econômicos, como o crescimento dos lucros das empresas (earnings), a trajetória dos juros e as condições gerais de atividade.

O histórico sugere que as midterms, por si só, não representam um fator estruturalmente negativo para o mercado acionário.

Assim, embora a mudança no controle do Congresso possa trazer volatilidade e impactos relevantes para setores específicos, como o de inteligência artificial neste momento, o que sustenta o desempenho das bolsas no longo prazo continua sendo a capacidade das empresas de gerar resultados e o ambiente macroeconômico.

Perguntas frequentes sobre as midterms americanas

O que acontece quando o partido do presidente perde a maioria no Congresso dos EUA? A capacidade de aprovar novas leis e avançar com parte da agenda fica significativamente limitada. Mesmo que a oposição conquiste o controle de todo o Congresso, ainda terá de lidar com o poder de veto do presidente.

Quantos votos são necessários para derrubar um veto presidencial nos EUA? Dois terços dos votos, tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado.

As bolsas costumam subir depois das eleições de meio de mandato? Nas 19 eleições realizadas desde 1950, o S&P 500 apresentou valorização em todas as ocasiões nos 12 meses seguintes, com retorno médio de 15,6%, contra uma média de 9,4% nos períodos de 12 meses desde 1950.

O que é o filibuster? É um mecanismo que permite aos parlamentares prolongar o debate sobre um projeto de lei e, na prática, impedir ou atrasar sua votação. Para encerrá-lo, normalmente são necessários 60 votos, de um total de 100 senadores, por meio de um procedimento chamado cloture.

Fontes: Associated Press, via BBC (resultados da Câmara dos Representantes, atualizados às 05h50 de Brasília de 4 de novembro de 2026); histórico do S&P 500 desde 1950, conforme o material Ghia Global  |  Ghia Family Office  |  Ghia Global, Ghia Family Office, edição de 5 de novembro de 2026

*Este material foi preparado pela Ghia Multi Family Office (“Ghia MFO”) e tem cunho meramente informativo, não constituindo consultoria ou aconselhamento legal de qualquer natureza. Embora as informações tenham sido obtidas de fontes consideradas confiáveis, nenhuma garantia ou responsabilidade, expressa ou implícita, é feita a respeito da exatidão, fidelidade e/ou totalidade das informações. A Ghia MFO emprega os melhores esforços para assegurar que as informações, opiniões, estimativas e projeções aqui contidas estejam atualizadas no momento de sua elaboração, mas não responde por alterações decorrentes de eventos futuros. Este material não constitui e não deve ser interpretado como solicitação de compra ou venda, oferta, convite, análise de valor mobiliário ou recomendação de qualquer ativo financeiro ou investimento, e não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Os interessados devem procurar aconselhamento financeiro conforme seus interesses antes de tomar qualquer decisão de investimento, sendo esta de sua exclusiva responsabilidade.

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