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Carta mensal Ghia MFO – Abril 2025

Liberation Day – O Tarifaço de Trump O primeiro trimestre de 2025 chega ao fim, consolidando um desempenho surpreendente nos mercados globais que desafiou as expectativas da maioria dos investidores....

4 de abril de 2025 5 min de leitura

Liberation Day – O Tarifaço de Trump

O primeiro trimestre de 2025 chega ao fim, consolidando um desempenho surpreendente nos mercados globais que desafiou as expectativas da maioria dos investidores. Como destacamos em nossa última carta mensal, este ano tem sido marcado por uma significativa “rotação” nos fluxos de capital internacional, redefinindo a dinâmica de performance dos ativos de risco em escala global. Enquanto os mercados norte-americanos acumulam perdas, Europa, China e economias emergentes selecionadas registram performances robustas. Março manteve essa tendência, fechando o trimestre com as seguintes performances nos principais índices mundiais:

Embora esta carta seja referente aos eventos do último mês, não podemos deixar de destacar o anúncio das “tarifas recíprocas”, que ficou conhecido como “Liberation Day”, ocorrido na primeira semana de abril – cujos efeitos podem se estender pela economia global e pelos mercados financeiros nos próximos anos. Dada sua relevância, dedicaremos o restante desta carta para uma avaliação mais detalhada do evento.

No dia 02/04/2025, em um evento no jardim da Casa Branca, Trump anunciou as aguardadas “tarifas recíprocas”. A implementação de tarifas sobre produtos importados foi uma das principais pautas da campanha de Donald Trump e era amplamente esperada. No entanto, a forma errática em que o governo republicano vinha conduzindo essa agenda, trouxe muita incerteza e consequente volatilidade para o mercado. Portanto, havia grande expectativa sobre esse anúncio.

O presidente norte-americano anunciou a implementação de uma tarifa mínima de 10% para todos os países que exportam produtos aos Estados Unidos e taxas adicionais a aproximadamente 60 nações que possuem os maiores desequilíbrios comerciais com os EUA, seja por uma balança comercial deficitária ou por tarifas vigentes superiores às aplicadas pelo governo americano. Dessa maneira, segundo estimativas da Tax Foudantion, a tarifa média sobre as importações aumentará de 2,5% para 18,8%, configurando a maior taxa média sobre importações desde a década de 1930.

Embora denominadas “tarifas recíprocas”, a medida estabelece que países sujeitos a alíquotas superiores a 10% sobre produtos americanos terão, em geral, suas importações taxadas pela metade do valor cobrado por seus respectivos governos. Importante destacar que essas tarifas incidem cumulativamente sobre as já existentes – caso da China, que, com sua atual taxa de 20%, passará a enfrentar uma tributação total de 54%.

Em contrapartida, México e Canadá, principais parceiros comerciais dos EUA, foram isentos das novas tarifas. Ambos já estavam submetidos a uma alíquota de 25%, condicionada ao cumprimento de acordos sobre controle migratório e do tráfico de fentanil.

A implementação de tarifas nos EUA pode beneficiar setores específicos ao protegê-los da concorrência estrangeira, mas o saldo para a economia como um todo tende a ser negativo. No curto prazo, o efeito mais imediato será um choque inflacionário, já que o aumento dos custos de insumos importados será repassado aos preços finais dos produtos. Além disso, indústrias que não possuem vantagens competitivas para produzir nos Estados Unidos serão obrigadas a fazer com um custo maior, pressionando ainda mais os preços.

Em um segundo momento, a demanda interna pode se contrair devido ao encarecimento dos produtos, combinado com uma redução na confiança dos produtores – afetados pelo aumento de custos e pela incerteza quanto a possíveis retaliações comerciais de outros países. A própria China, por exemplo, já anunciou a implementação de tarifas de 34% sobre os produtos americanos. Dessa maneira, o receio em relação a uma possível desaceleração econômica global aumenta e o movimento de risk-off toma conta dos mercados.

Em ambientes de grande aversão a risco, como o que estamos vivendo nesse momento, o mercado deixa de lado a racionalidade e grandes quedas, seguidas de fortes recuperações em um curto espaço de tempo podem ocorrer. E não cabe a nós prever o próximo movimento de curto prazo, afinal, não passaria de uma aposta. Sabemos que acertar o market timing é uma missão quase impossível, e que no longo prazo seu efeito é diluído, conforme exemplificado nos gráficos abaixo:

O primeiro gráfico demonstra o impacto de não estar investido em alguns dos melhores dias de performance da bolsa – no período entre 2000 e 2024, o investidor que se manteve investido 100% dos dias, teve um retorno anual de 10,2%, enquanto o investidor que perdeu os 30 melhores dias viu seu retorno cair para 1,0% a.a.. E vale ressaltar que sete dos dez melhores dias nos últimos 24 anos ocorreram em até duas semanas após os 10 piores dias. O segundo gráfico, por sua vez, mostra que quanto maior o tempo em que o investidor se mantém investido, menor a dispersão de retornos e a chance de ter um retorno negativo.

De fato, estamos passando por um marco importante na dinâmica econômica global, mas o nível de incerteza ainda é elevado e nem todas as peças estão postas sobre a mesa. As próximas semanas serão importantes para entendermos o quão dispostos os Estados Unidos estão para negociar as alíquotas ou se entraremos em uma escalada tarifária global ainda maior.

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