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6 de fevereiro de 2025 5 min de leitura

Carta mensal Ghia MFO – Fevereiro 2025

Suspiro Momentâneo O primeiro mês de 2025 trouxe um suspiro momentâneo, e bem-vindo, depois de um ano de forte deterioração dos ativos locais. No entanto, essa performance pode ser atribuída...

Suspiro Momentâneo

O primeiro mês de 2025 trouxe um suspiro momentâneo, e bem-vindo, depois de um ano de forte deterioração dos ativos locais. No entanto, essa performance pode ser atribuída majoritariamente a fatores externos do que necessariamente a uma melhora dos fundamentos domésticos. Ao longo de janeiro a bolsa brasileira registrou a entrada de R$ 6,8 bilhões de capital estrangeiro e, com isso, o Ibovespa fechou o mês com alta de 4,9% e o dólar recuou de R$ 6,20 para R$ 5,85.

O evento mais esperado do ponto de vista político-econômico no cenário internacional era a posse de Donald Trump. Havia um receio do mercado de que o novo presidente adotaria políticas migratórias e tarifárias agressivas logo na primeira semana de mandato. Contudo, o republicano adotou um tom mais brando nas primeiras semanas e apenas no início de fevereiro anunciou a imposição de tarifas de 25% sobre os produtos importados do Canadá e do México e de 10% sobre os produtos chineses.

A justificativa para a bravata contra os países vizinhos se pautou na entrada ilegal de imigrantes e drogas (principalmente o fentanil) pelas respectivas fronteiras. Inicialmente, os governos canadense e mexicano anunciaram tarifas retaliatórias, porém, depois de negociações com o presidente norte-americano, os dois países concordaram em fortalecer a segurança nas fronteiras em troca da suspensão por 30 dias da imposição das tarifas. Esse é um sinal de como a situação é delicada para os vizinhos, já que os EUA absorvem 78% das exportações do Canadá e 80% das do México. No caso da China, não houve suspensão e o governo chinês retaliou com a implementação de 10% de tarifas sobre determinados produtos importados dos Estados Unidos. Embora o protecionismo contra a China tenha se concretizado sem negociação prévia, como no caso mexicano e canadense, a tributação sobre os produtos chineses veio muito abaixo do que Trump havia verbalizado em sua campanha eleitoral. Na ocasião, falava-se em tarifas de até 60% sobre importações chinesas.

Esse pano de fundo contribuiu para o fechamento da curva de juros norte-americana, para a desvalorização do dólar e o movimento de risk-on que estimulou o fluxo de capital para países emergentes. Além disso, outro evento que contribuiu para tal movimento foi o lançamento do novo sistema de inteligência artificial da empresa chinesa DeepSeek, o chatbot DeepSeek R1, semelhante ao ChatGPT. A grande novidade foi o custo divulgado para criação desse sistema que, segundo a empresa, foi de US$ 5,6 milhões, em comparação com a faixa de US$ 100 milhões a US$ 1 bilhão citada no último ano pelos concorrentes ocidentais. Além disso, a companhia afirma ter usado um conjunto de 2 mil chips da Nvidia (de gerações anteriores) em comparação com dezenas de milhares de chips que normalmente são utilizados para treinar modelos de tamanho semelhantes.

Desse modo, os investidores passaram a reconsiderar as avaliações das grandes empresas de inteligência artificial, uma vez que parece ser possível ter um sistema avançado de IA com menos processadores, como sugerem os resultados obtidos pela DeepSeek. Assim, ficam abaladas as projeções de que os data centers terão que crescer exponencialmente – e talvez sejam necessários menos processadores e menos consumo de energia do que o imaginado. Isso pode ter repercussões nas expectativas de receita de operadores desses modelos, como a Microsoft, e, especialmente, nos fornecedores de equipamentos que suportam esses modelos, como chips projetados e vendidos pela Nvidia e produzidos pela TSMC com equipamentos da ASML.

Do ponto de vista da dinâmica concorrencial, o ambiente de fato se torna mais desafiador para as gigantes de tecnologia americanas, que amargaram fortes quedas em janeiro. No entanto, os impactos econômicos de médio prazo podem ser significativamente positivos em termos de ganho de produtividade e menos inflação prospectiva, ao passo que novos softwares de inteligência artificial se tornam mais acessíveis e de forma mais barata.

Apesar do noticiário brasileiro ter ficado mais vazio em janeiro devido ao recesso parlamentar, os ativos se beneficiaram da entrada de fluxo capital estrangeiro e de alguns dados que apontam para uma desaceleração da economia na margem. Mas. a inflação segue pressionada principalmente pelo mercado de trabalho ainda aquecido e pela recente desvalorização cambial, obrigando o Banco Central a seguir com a trajetória de aumento da Selic, a qual o mercado precifica que terminará o ano acima de 15% a.a.. Se não houver algum movimento do governo no sentido de conter os gastos públicos para desacelerar a política fiscal expansionista, o mês de janeiro será lembrado apenas como um “suspiro momentâneo” em um ano que deve ser marcado por grande volatilidade dos ativos locais.

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