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Carta mensal Ghia MFO – Maio 2025

Encarando a realidade Abril foi marcado por forte volatilidade, desencadeada principalmente pelas “tarifas recíprocas” anunciadas no início do mês pelo governo dos Estados Unidos. Embora a imposição...

8 de maio de 2025 5 min de leitura

Encarando a realidade

Abril foi marcado por forte volatilidade, desencadeada principalmente pelas “tarifas recíprocas” anunciadas no início do mês pelo governo dos Estados Unidos. Embora a imposição de tarifas sobre importações já fosse amplamente antecipada pelo mercado, a forma como o tema foi conduzido e o nível inesperado das alíquotas surpreenderam a todos, provocando uma acentuada aversão ao risco e uma correção significativa nos ativos norte-americanos. Na nossa última carta, publicada nesse contexto, enfatizamos a importância de aderir à nossa filosofia de investimentos, que nos ensina que, muitas vezes, a melhor decisão é simplesmente manter o curso e evitar movimentos precipitados – afinal, os melhores dias de performance do mercado costumam ocorrer logo após as quedas mais intensas. Esse foi exatamente o caso: do fechamento do dia 2 até o dia 8 de abril, o S&P 500 acumulou uma queda de 12%, mas no pregão seguinte, recuperou 9,5% em um único dia.

Mas, afinal, o que mudou no cenário desde então e como isso se reflete em nossa alocação? A imposição de tarifas certamente adiciona uma perspectiva de desaceleração econômica e pressões inflacionárias à frente. No entanto, os impactos finais dependerão do nível efetivo de tributação que será definido após as negociações em curso, um ponto ainda cercado de incertezas. Após a forte reação negativa dos mercados, o governo dos EUA recuou parcialmente, reduzindo as tarifas para a maioria dos parceiros comerciais (exceto a China) e estabelecendo uma pausa de 90 dias com alíquotas temporárias de 10%. Isso reduziu as tensões e abriu espaço para negociações mais amplas. No caso da China, as tarifas continuam em patamares que praticamente inviabilizam o comércio bilateral, uma situação insustentável no longo prazo. Recentemente, foi anunciado que as negociações entre as duas maiores economias do mundo foram retomadas, com o secretário do Tesouro dos EUA se reunindo com o vice-primeiro-ministro chinês em 10 de maio, em Genebra – um sinal de que o cenário à frente pode ser menos adverso do que inicialmente precificado.

No entanto, apesar das incertezas e dos sinais de desaceleração apontados por indicadores antecedentes, isso ainda não se reflete nos dados reais da economia (hard data). O PIB do primeiro trimestre, embora negativo, foi distorcido por uma forte antecipação de importações antes da implementação das novas tarifas. Quando analisamos a métrica que melhor capta a demanda doméstica subjacente – o Final Sales to Domestic Purchasers – o crescimento foi de 3,0%, em linha com a média dos últimos dois anos, indicando que o núcleo da atividade econômica segue resiliente. O mercado de trabalho também continua robusto, com uma média de criação de 155 mil novos postos de trabalho nos últimos três meses, e o dado de abril surpreendeu positivamente as expectativas do mercado. Essa leitura foi destacada pelo presidente do Federal Reserve em sua última coletiva, reforçando a postura cautelosa do banco central norte-americano.

Em meio a esse ambiente, os ativos brasileiros se beneficiaram do apetite por risco que retornou aos mercados emergentes, principalmente na América Latina, que foi menos impactada pelas tarifas. A bolsa brasileira registrou uma impressionante alta de 20% em dólares até o final de abril, também impulsionada pela valorização de 8% do real no período. No cenário doméstico, a atividade econômica continua resiliente, com o mercado de trabalho aquecido, mantendo a inflação pressionada. Em resposta, o Banco Central promoveu mais um aumento da Selic, elevando a taxa para 14,75% a.a., em uma decisão que, apesar de significativa, sinalizou a proximidade do fim do ciclo de aperto monetário. O comunicado da reunião sugere que, embora a inflação ainda esteja acima da meta para o horizonte de 2026, os custos econômicos de uma política ainda mais restritiva seriam elevados, o que implica em uma convivência com inflação acima da meta por mais algum tempo.

Diante desse contexto, mantemos nossa preferência por títulos indexados ao IPCA e ao CDI, que se beneficiam de uma inflação persistente e taxas de juros elevadas. Em relação aos ativos internacionais, apesar da persistente incerteza associada à guerra tarifária, a economia norte-americana tem demonstrado resiliência, com o S&P 500 praticamente recuperando as perdas desde o “Liberation Day”. Continuamos, portanto, construtivos em relação aos ativos de risco nos Estados Unidos, embora com uma postura cautelosa, dado o cenário desafiador que ainda se desenha para os próximos meses.

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