O Xadrez dos Mercados Globais
Em nossa primeira carta de 2025 comentamos sobre a dinâmica econômica e de mercados ao longo do último ano, a qual foi marcada pelo excepcionalismo norte-americano: economia resiliente, inovações tecnológicas, juros altos e dólar forte. Esse contexto fez com que os Estados Unidos atraíssem capital do mundo todo e impulsionou o desempenho dos ativos de risco locais. Tal movimento foi intensificado com a eleição de Donald Trump, na expectativa de que o novo governante implementasse políticas que estimulassem ainda mais a economia e o ambiente “pró-mercado”.

No gráfico à esquerda, fica evidente o excepcionalismo americano ao longo de 2024, com S&P 500 e Nasdaq em destaque entre as bolsas globais e o dólar, representado pelo DXY, com expressiva valorização. O gráfico à direita, por sua vez, escancara a mudança drástica no fluxo de capitais, que tem resultado em uma nova dinâmica de performance dos ativos de risco globais neste ano. Europa e mercados emergentes se beneficiando, enquanto trades “óbvios” no ano passado, como a compra do dólar e de bolsa americana, principalmente Big Techs, não tiveram um bom desempenho. A grande questão é se estamos diante do começo de uma reversão estrutural de fluxo ou apenas de um movimento técnico de correção de posições que até então eram consensuais.
Mudanças no xadrez geopolítico também impactaram o mercado em fevereiro, ao passo que Donald Trump se mostra contrário em manter o apoio financeiro e militar à Ucrânia, obrigando a Europa ocupar tal papel. O governo alemão anunciou a criação de um fundo fora do orçamento na ordem de 500 bilhões de euros para bancar despesas militares e investimentos em infraestrutura. O plano visa reestimular o crescimento econômico da região ao mesmo tempo que reforça a defesa militar do país. Como reflexo, índices acionários europeus tiveram performance positiva e o euro se valorizou no mês, enquanto o yield do juro de 10 anos alemão registrou maior alta diária desde 1997, demonstrando preocupação com a sustentabilidade das contas públicas.
Apesar do contexto favorável para os mercados emergentes, o Brasil ficou, mais uma vez, de fora da festa, com o Ibovespa registrando queda -2,64% em fevereiro. Sem soluções estruturais para endereçar a mazela fiscal – que tantas vezes já abordamos em nossas cartas – o mercado tem se ancorado nas eleições presidenciais de 2026, visto que as pesquisas de avaliação do atual governo mostram alto nível de reprovação mesmo em regiões tradicionalmente mais favoráveis às administrações do PT, como o nordeste. Na última pesquisa realizada pelo Datafolha, Lula registra apenas 25% de avaliações positivas, sendo que historicamente apenas presidentes com esse índice acima de 40% por volta de 2 anos de mandato conseguiram se reeleger ou fazer sucessão. É claro que ainda estamos na metade do atual mandato presidencial e muita coisa pode acontecer, inclusive a possível implementação de medidas populistas para tentar reaver a credibilidade perdida, o que poderia agravar ainda mais a questão fiscal.
No entanto, mesmo que no curto prazo se consiga tal reversão via medidas populistas, o efeito subsequente deverá ser de mais inflação. E é justamente a alta dos preços que tem sido a grande fonte de insatisfação popular. A cesta de alimentação em domicílio dentro do IPCA registra aumento de 7,2% nos últimos 12 meses, impactando de maneira significativa o poder de compra principalmente das famílias de baixa renda.
Por fim, esperamos que a volatilidade dos ativos continue elevada no cenário externo nos próximos meses, tanto pela postura de Trump de usar as tarifas comerciais como arma de negociação, ampliando as incertezas para os empresários, quanto pela suas tentativas de esvair o multilateralismo na dinâmica geopolítica atual, intensificando tensões entre os países. Enquanto isso, no Brasil, seguimos com os preços dos ativos de risco depreciados e alocação historicamente baixa de investidores estrangeiros e institucionais, o que nos faz acreditar que, mesmo no atual cenário adverso, uma possível recuperação dos mercados pode ser rápida e repentina. Seguimos com os portfólios mais defensivos, mas posicionados para aproveitar possível recuperação.
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