Conteúdos | Carta Mensal
8 de setembro de 2026 4 min de leitura

Carta mensal – Setembro 2026

Rota de Colisão

Por vezes, o mercado trata com certo ceticismo a sustentabilidade do crescimento das empresas de tecnologia, principalmente pela dúvida em relação ao retorno sobre os investimentos bilionários realizados pelas big techs. Em um ambiente de múltiplos esticados, o preço dos ativos fica, de certa forma, à mercê desse ceticismo, como ocorreu em julho, quando as empresas do segmento tiveram performance negativa. No entanto, o mercado tem sido consistentemente surpreendido por resultados melhores do que o esperado, e o ceticismo vai dando lugar à racionalidade de que não se briga com os fundamentos. E os fundamentos são robustos: mais de 80% das empresas do S&P 500 superaram as expectativas de lucro na temporada de resultados do segundo trimestre. O melhor exemplo é a Nvidia, a divulgação mais aguardada da temporada e termômetro do mercado de inteligência artificial, que reportou receita recorde de US$ 96,2 bilhões no trimestre encerrado em julho, alta de 106% sobre o mesmo período do ano anterior.


Essa excelente temporada de resultados puxou o desempenho das principais bolsas globais, mesmo em um mês marcado pela intensificação do conflito no Oriente Médio, que mantém o petróleo em patamares elevados, e pela discussão de aumento de juros nos Estados Unidos. O lado negativo dessa história recai sobre os países sem exposição direta à cadeia de inteligência artificial, como o Brasil. A título de comparação, na temporada do segundo trimestre por aqui, apenas 41% das companhias brasileiras superaram as expectativas de lucro, o menor patamar da série histórica da cobertura da XP, iniciada no primeiro trimestre de 2023. Nesse contexto, a bolsa brasileira registrou saída líquida de mais de R$ 18 bilhões de capital estrangeiro em agosto.




Além de competir com o tema de tecnologia pelo capital global, o Brasil ainda precisa lidar com seus próprios desafios: uma economia em desaceleração e uma taxa de juros sufocante, que encontra um piso alto devido ao descontrole fiscal. Enquanto isso, o Tesouro Nacional enfrenta dificuldade para rolar a dívida, a inadimplência das famílias atinge níveis preocupantes e os pedidos de recuperação judicial se tornam rotineiros. Esse pano de fundo coloca nossa economia em rota de colisão, a mesma em que entramos há dez anos. Nesse contexto, as eleições que se aproximam ganham relevância ainda maior, com influência direta sobre a dinâmica econômica à frente.


De um lado, a perpetuação do atual governo representa a continuidade da negligência com as contas públicas e, com ela, um ambiente de inflação desancorada e juros elevados, que pode levar a economia a mais uma recessão. De outro, a alternância de poder no Executivo traz a esperança de que pautas impopulares, mas extremamente necessárias, sejam levadas a sério, abrindo perspectiva de estabilização da dívida pública e de retorno dos juros a patamares civilizados, capaz de tirar o Brasil da rota de colisão.

Vale ressaltar que, mesmo no cenário de alternância, e independentemente do candidato, o caminho segue bastante desafiador. Boa vontade e bons projetos, infelizmente, não bastam para garantir mudanças em um país cujo processo político é dominado por interesses organizados que defendem suas próprias agendas, muitas vezes de maneira pouco republicana. De todo modo, como reforçamos em diferentes ocasiões, o mercado antecipa e reage às probabilidades, e não à concretização dos fatos. Com as pesquisas divulgadas na primeira semana de setembro, quando escrevemos esta carta, apontando maior competitividade da oposição, já vimos um rali nos ativos de risco, com fechamento da curva de juros e o Ibovespa se aproximando dos 186 mil pontos.




Portanto, o contraste não poderia ser mais claro: enquanto o mundo desenvolvido discute os retornos de uma revolução tecnológica, o Brasil volta a discutir os mesmos problemas de uma década atrás. É justamente essa dicotomia que reforça nossa convicção: patrimônio pode até ser construído no Brasil, mas se perpetua globalmente. A internacionalização de parte relevante dos portfólios deixou de ser apenas uma ferramenta de diversificação e se tornou condição para participar dos vetores estruturais de crescimento que hoje passam longe da nossa economia, além de proteger as famílias dosdesdobramentosde uma eventual colisão.

Isso não significa abandonar o mercado local, onde os juros elevados seguem remunerando muito bem a espera e uma mudança de rota nas urnas pode destravar valor de forma expressiva, mas sim reconhecer que os dois movimentos se complementam: o Brasil oferece o carrego e a opcionalidade eleitoral; o exterior, o crescimento estrutural e osegurocontraos riscos locais.

*Este material foi preparado pela Ghia Multi Family Office (“Ghia MFO”) e tem cunho meramente informativo, não constituindo consultoria ou aconselhamento legal de qualquer natureza. Embora as informações tenham sido obtidas de fontes consideradas confiáveis, nenhuma garantia ou responsabilidade, expressa ou implícita, é feita a respeito da exatidão, fidelidade e/ou totalidade das informações. A Ghia MFO emprega os melhores esforços para assegurar que as informações, opiniões, estimativas e projeções aqui contidas estejam atualizadas no momento de sua elaboração, mas não responde por alterações decorrentes de eventos futuros. Este material não constitui e não deve ser interpretado como solicitação de compra ou venda, oferta, convite, análise de valor mobiliário ou recomendação de qualquer ativo financeiro ou investimento, e não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Os interessados devem procurar aconselhamento financeiro conforme seus interesses antes de tomar qualquer decisão de investimento, sendo esta de sua exclusiva responsabilidade.

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