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A última reunião de Powell à frente do Fed

Juros mantidos em 3,50–3,75%, o comitê caminhando para o centro e uma despedida marcada pela defesa da independência do banco central.

29 de abril de 2026 5 min de leitura

Como amplamente esperado, a taxa de juros foi mantida no patamar de 3,50%–3,75%. A decisão, porém, carrega um peso que vai além da conjuntura: esta foi a reunião de despedida de Jerome Powell como presidente do Fed.

Duas votações, duas divisões

A decisão sobre os juros não foi unânime, mais uma vez: o indicado de Trump, Stephen Miran, votou sozinho por um corte de 25 bps.

A decisão sobre o tom da comunicação também não foi unânime — três membros do FOMC não concordaram em manter o viés baixista no comunicado. No geral, Powell comentou que a avaliação do comitê está se deslocando para o “centro”: já há mais diretores dispostos a sinalizar probabilidades iguais de os juros precisarem ser elevados ou reduzidos.

Riscos de inflação ligeiramente mais desconfortáveis

O comitê ainda não observou completamente o fim da inflação ligada às tarifas. Além disso, as pressões vindas da inflação de energia observadas nas últimas divulgações começam a pesar na visão do comitê para o longo prazo. O PCE estimado para março está em 3,5% e o núcleo em 3,2% — altas significativas em relação aos números anteriores.

Apesar de ter rejeitado o termo “estagflação” na última decisão, Powell chamou a atenção para o potencial efeito recessivo da crise do petróleo. Pouca ênfase foi dada a essa frente, mas o assunto foi trazido na coletiva por iniciativa própria do presidente do Fed — sugerindo que está no radar do comitê e balanceando qualquer interpretação excessivamente hawkish da mudança de postura dos diretores.

Já o mercado de trabalho mal foi mencionado. Em linha com o reforçado na reunião anterior, o que mais importa hoje na avaliação é a taxa de desemprego, em detrimento de outros indicadores como o payroll. A inércia observada nessa variável faz com que os riscos ao emprego fiquem escanteados nesta fase da conjuntura: não há conforto, mas há outras prioridades.

Em suma: o Fed solidificou a postura mais neutra, com a Fed Funds “bem posicionada” frente às incertezas. Essa postura se aproxima mais das expectativas do mercado de estabilidade da Fed Funds ao longo de 2026.

O comunicado em detalhe

Abertura

A taxa foi mantida em um contexto de ainda maior incerteza ligada à perpetuação dos conflitos no Golfo Pérsico. A economia dos EUA ainda tem se mantido sólida: a taxa de desemprego permanece relativamente estável nos últimos meses, mesmo sem criação efetiva de novos postos. É um cenário de baixo dinamismo no mercado de trabalho, mas de persistência no consumo.

Atividade econômica e mercado de trabalho

  • Atividade: a avaliação do Fed é de que a economia se mantém em “ritmo sólido”. O consumo tem se mantido bem nas últimas divulgações e há uma demanda “aparentemente insaciável” por investimento em IA, que deve continuar.
  • Mercado de trabalho: abertura de vagas, demissões, contratações e crescimento salarial nominal mostraram poucas mudanças. Nos meses recentes há basicamente zero criação líquida de empregos, mas a estabilidade do desemprego sinaliza um equilíbrio — um equilíbrio, segundo Powell, desconfortável e difícil para quem está fora do mercado.
  • Causa da estagnação: boa parte deriva da queda na força de trabalho causada pela redução na imigração e na participação, apesar de a demanda por mão de obra também ter arrefecido desde o ano passado.

Inflação e política monetária

Duas questões se sobrepõem na pauta da inflação: as tarifas, cujos efeitos ainda não passaram completamente pelos preços — apesar de Powell afirmar que o processo deva se exaurir ao longo deste ano —, e o choque do petróleo.

Nos 12 meses até março, o índice total de preços PCE subiu 3,5%, impulsionado pelo aumento significativo do petróleo ligado ao conflito no Oriente Médio; o núcleo avançou 3,2%. Powell alertou que o Fed espera que o repasse inflacionário das tarifas perdure pelos próximos dois trimestres — e que, para o comitê, é imperativo ver esse efeito “passar” pela economia antes mesmo de cogitar cortes ou de decidir se deve ou não “ignorar” (look through) o choque energético.

As medidas de expectativas de inflação de curto prazo subiram nas últimas semanas como reflexo do choque do petróleo, mas as de longo prazo permanecem ancoradas e consistentes com a meta de 2%.

Sobre a política, o FOMC avalia que o patamar atual está no limite superior do neutro, possivelmente sendo levemente restritivo — o que deixa o comitê “bem posicionado” para avaliar os próximos dados e os impactos do Oriente Médio sobre os preços, em um primeiro momento, e sobre o nível de atividade, em um segundo. Houve debate vigoroso sobre a remoção do viés de corte (easing bias) e, embora a maioria tenha optado por mantê-lo por ora, Powell revelou que os diretores estão se movendo para uma postura mais neutra.

Destaques da coletiva de imprensa

Nem todas as perguntas foram transcritas: selecionamos as mais relevantes em termos de cenário, decisões de política monetária e transição institucional.

A transição: a próxima decisão, em junho, já será sob a liderança de Kevin Warsh, sabatinado pelas casas legislativas dos EUA na semana passada. Powell permanecerá no comitê como governador e atribuiu essa decisão à defesa da independência do Fed frente aos ataques jurídicos promovidos pelo governo Trump à instituição.

Jerome Powell deixa a presidência com um legado de defesa da solidez institucional.

Fontes: Federal Reserve (comunicado e coletiva de imprensa)  |  Ghia Multi Family Office  |  29 de abril de 2026

 

 

*Este material foi preparado pela Ghia Multi Family Office (“Ghia MFO”) e tem cunho meramente informativo, não constituindo consultoria ou aconselhamento legal de qualquer natureza. Embora as informações tenham sido obtidas de fontes consideradas confiáveis, nenhuma garantia ou responsabilidade, expressa ou implícita, é feita a respeito da exatidão, fidelidade e/ou totalidade das informações. A Ghia MFO emprega os melhores esforços para assegurar que as informações, opiniões, estimativas e projeções aqui contidas estejam atualizadas no momento de sua elaboração, mas não responde por alterações decorrentes de eventos futuros. Este material não constitui e não deve ser interpretado como solicitação de compra ou venda, oferta, convite, análise de valor mobiliário ou recomendação de qualquer ativo financeiro ou investimento, e não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Os interessados devem procurar aconselhamento financeiro conforme seus interesses antes de tomar qualquer decisão de investimento, sendo esta de sua exclusiva responsabilidade.

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