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11 de setembro de 2026 9 min de leitura

Ghia Global - Resultados do 2º trimestre: o que Adidas, Nike, On, Puma e JD Sports revelam sobre o consumidor esportivo

O mercado puniu com força as grandes marcas esportivas depois do segundo trimestre de 2026. Os números, porém, contam histórias bem diferentes entre si.

As ações de Adidas, On, JD Sports e Puma caíram com força depois dos resultados do segundo trimestre de 2026. À primeira vista, parece o começo de uma crise generalizada no setor esportivo. Mas um olhar mais atento mostra algo diferente: o consumidor não desapareceu. Ele está mais seletivo, e algumas marcas enfrentam problemas muito mais específicos do que o mercado parece sugerir.

O pano de fundo: um consumidor global mais cauteloso, mas não ausente

A temporada de resultados do segundo trimestre trouxe uma fotografia interessante do consumidor global. Nos Estados Unidos, apesar de uma temporada de lucros ainda bem robusta nas empresas de tecnologia, começaram a aparecer sinais mais claros de cautela no consumo discricionário, com empresas apontando para pressão sobre margens, estoques e mudanças rápidas nas preferências.

Na Europa, o cenário foi mais construtivo: os resultados corporativos vieram, em geral, acima das expectativas, reforçando a percepção de resiliência da economia e do consumidor. Na Ásia, especialmente no Japão e nos mercados ligados à tecnologia, o tom também foi mais positivo, com o forte crescimento dos lucros ajudando a sustentar o apetite por ações.

É nesse contexto que os resultados das grandes marcas esportivas chamaram atenção. O mercado reagiu de forma particularmente dura: Adidas recuou cerca de 12%, On chegou a cair mais de 20%, JD Sports perdeu cerca de 14% e Puma também sofreu uma forte correção.

 

Adidas: o melhor exemplo da contradição

A Adidas talvez seja o melhor exemplo dessa contradição. A companhia entregou um trimestre operacionalmente forte, com receita crescendo 14% em termos cambiais e atingindo um recorde de €6,7 bilhões. O DTC (direct-to-customer, vendas que não passam por intermediários) avançou 25% e a empresa chegou a elevar sua perspectiva para o ano.

Ainda assim, a ação caiu fortemente após os resultados, em parte porque o lucro operacional, de €574 milhões, ficou abaixo das expectativas. O contraste é importante: a marca continua crescendo, mas o mercado já não está disposto a pagar qualquer preço por esse crescimento. Depois de uma forte recuperação da Adidas nos últimos anos, a régua de expectativas subiu, e agora cada sinal de pressão sobre margem ou rentabilidade é suficiente para provocar uma reação mais severa.

O problema americano da JD Sports e a dependência da Nike

A geografia também ajuda a explicar o que está acontecendo. Enquanto a Europa continua apresentando um ambiente relativamente resiliente, a América do Norte começa a mostrar sinais mais claros de desaceleração. E é justamente nos Estados Unidos que a JD Sports encontrou seu principal problema.

No segundo trimestre, as vendas like-for-like do grupo caíram 3,1%, mas o número esconde uma diferença importante: na América do Norte, onde está mais de um terço da receita da companhia, a queda chegou a 6,8%. Reino Unido e Ásia-Pacífico, por outro lado, tiveram desempenho positivo.

O problema americano parece ser uma combinação de consumidor mais cauteloso, atraso nas compras de volta às aulas e menor procura por alguns dos principais lançamentos de calçados. A forte dependência da JD em relação à Nike também pesa: a marca representa mais de 40% das vendas da varejista, e sua menor capacidade de gerar novidades tem impacto direto no ritmo de vendas da JD. O resultado foi uma redução da projeção de lucro para o ano, aumentando ainda mais a pressão sobre a ação.

E a Nike ajuda a explicar por que a fraqueza americana merece atenção. A maior marca esportiva do mundo vem atravessando um processo de recuperação justamente depois de perder parte de seu impulso nos Estados Unidos e de depender excessivamente de franquias já consolidadas. O desafio não é apenas vender mais, mas voltar a criar desejo por novos produtos. A estratégia de reposicionamento da companhia passa por reduzir a dependência de alguns dos seus modelos mais tradicionais, recuperar espaço no varejo e acelerar a inovação em categorias como running.

Para varejistas como a JD Sports, essa transição é especialmente relevante: quando a Nike tem menos novidades capazes de gerar tráfego e ritmo de vendas, o efeito aparece diretamente nas vendas das lojas.

Isso ajuda a colocar a atual desaceleração em perspectiva. Não se trata apenas de um consumidor americano mais fraco, mas também de uma indústria atravessando uma transição de produtos. A questão é se as marcas conseguirão transformar os próximos lançamentos em um novo ciclo de demanda. Nesse aspecto, a Nike talvez seja o caso mais importante para acompanhar.

On: crescer rápido também tem um preço

A On conta uma história diferente. A companhia suíça continua crescendo em ritmo elevado, mas o problema foi justamente a velocidade desse crescimento. A receita do segundo trimestre aumentou 13,5%, para CHF 850 milhões, mas ficou abaixo das expectativas. Nas Américas, que representam mais da metade das vendas, o crescimento desacelerou para 13%, contra 17% no primeiro trimestre. Em compensação, a Ásia-Pacífico cresceu impressionantes 54,7%.

A reação do mercado foi particularmente dura porque a On construiu sua tese justamente em torno de crescimento acelerado, inovação e posicionamento premium. A companhia vem deliberadamente evitando grandes descontos e priorizando vendas a preço cheio, mesmo em um ambiente promocional. O DTC continua crescendo fortemente, mas essa estratégia também exige mais investimento: as despesas operacionais subiram 19% no trimestre.

Crescimento de receita no 2T26Grandes marcas esportivas (%)adidas+14%On+13,5%JD Sports-3,1%Puma-9,4%crescimentoretraçãoBases: adidas em moeda constante. On em CHF. Puma e JD Sports em vendas like-for-like. Comparação direcional.Fonte: resultados corporativos do 2T26 | Ghia Multi Family Office | set/2026.

Adidas e On seguem crescendo com força; JD Sports e Puma estão em retração, mas por razões diferentes entre si, como o texto detalha.

O verdadeiro custo do modelo direct-to-consumer

Também aqui aparece uma das principais questões do setor. Durante anos, o direct-to-consumer foi apresentado como a fórmula perfeita para as marcas esportivas: vender diretamente ao consumidor, eliminar intermediários e capturar margens maiores.

Na prática, porém, o modelo tem um custo. Quando o tráfego diminui, a empresa precisa gastar mais em marketing, lojas e aquisição de clientes para gerar o mesmo crescimento. O varejo oferece menos margem, mas também funciona como um amortecedor. É por isso que a desaceleração recente não afeta todas as empresas da mesma maneira: marcas com forte presença direta estão mais expostas ao custo de gerar tráfego, enquanto varejistas como a JD sentem mais diretamente quando determinados produtos deixam de girar.

Puma: por que "crise" é a palavra errada

A Puma está em uma situação ainda mais específica. A empresa não está apenas enfrentando uma demanda mais fraca; está deliberadamente reduzindo negócios considerados pouco atrativos enquanto passa por um processo de reposicionamento.

No segundo trimestre, as vendas caíram 9,4% desconsiderando o efeito cambial, com quedas de 12,9% na região EMEA e 15,4% nas Américas. A América do Norte foi particularmente fraca, com retração de 16,7%. Em contraste, a Ásia-Pacífico cresceu 8,6%.

A Puma, portanto, é provavelmente o caso em que a palavra "crise" faz menos sentido. A companhia está em um reset. Os estoques caíram 15,3%, o fluxo de caixa livre melhorou significativamente e a empresa continua investindo em categorias como running, treinamento e futebol. A própria administração espera que as vendas melhorem sequencialmente no segundo semestre e vê 2026 como um ano de transição para uma retomada mais saudável a partir de 2027.

Os estoques contam outra parte da história

Em ciclos anteriores, uma desaceleração da demanda frequentemente vinha acompanhada de excesso de produtos, o que obrigava marcas e varejistas a recorrer a descontos agressivos. Desta vez, a situação parece mais controlada em boa parte do setor.

Ainda assim, o comportamento dos descontos mostra que nem todas as marcas estão no mesmo lugar. Adidas e On continuam relativamente disciplinadas nos grandes varejistas, protegendo seu posicionamento premium. Já a Puma, por sua vez, está sendo mais agressiva em mercados como França e Reino Unido, justamente porque ainda está no processo de limpar estoques e reorganizar a distribuição.

Afinal, o tênis saiu de moda?

No fim, talvez essa seja a melhor forma de interpretar o trimestre: não existe uma única crise do esporte. Existem várias histórias acontecendo ao mesmo tempo. A Adidas está lidando com expectativas elevadas depois de uma forte recuperação; a Nike está tentando reencontrar seu poder de inovação e recuperar relevância, sobretudo nos Estados Unidos; a On precisa provar que consegue manter crescimento premium sem sacrificar rentabilidade; a JD Sports está especialmente exposta à fraqueza americana e à performance da Nike; e a Puma está no meio de uma reestruturação que pode preparar o terreno para um novo ciclo.

Por isso, talvez seja cedo para dizer que o tênis saiu de moda. O que parece estar acontecendo é uma rotação de preferências e uma seleção cada vez maior entre marcas, produtos e geografias.

No esporte, a Nike popularizou o Just Do It. Para o investidor, a lição do trimestre talvez seja outra: não basta simplesmente fazer: é preciso escolher quem está fazendo, onde está crescendo e, principalmente, se o próximo produto será bom o suficiente para fazer o consumidor correr até a loja.

Por que as ações das empresas de artigos esportivos caíram tanto no segundo trimestre de 2026?
Porque o mercado ficou mais exigente com a qualidade do crescimento, não porque a demanda tenha desaparecido. Adidas e On continuam crescendo em dois dígitos, mas decepcionaram em rentabilidade (Adidas) ou em velocidade de crescimento nas Américas (On). JD Sports e Puma, por sua vez, enfrentam problemas mais específicos: a primeira pela fraqueza americana e pela dependência da Nike; a segunda por estar em um processo deliberado de reposicionamento.

O tênis saiu de moda?
Os dados do segundo trimestre de 2026 não sustentam essa leitura. O que parece estar em curso é uma rotação de preferências entre marcas, produtos e geografias, com o consumidor mais seletivo, não ausente.

 

Fontes: Resultados corporativos do 2T26 (Adidas, On, JD Sports, Puma, Nike)  |  Ghia Multi Family Office  |  Ghia Global, edição de 11 de setembro de 2026

*Este material foi preparado pela Ghia Multi Family Office (“Ghia MFO”) e tem cunho meramente informativo, não constituindo consultoria ou aconselhamento legal de qualquer natureza. Embora as informações tenham sido obtidas de fontes consideradas confiáveis, nenhuma garantia ou responsabilidade, expressa ou implícita, é feita a respeito da exatidão, fidelidade e/ou totalidade das informações. A Ghia MFO emprega os melhores esforços para assegurar que as informações, opiniões, estimativas e projeções aqui contidas estejam atualizadas no momento de sua elaboração, mas não responde por alterações decorrentes de eventos futuros. Este material não constitui e não deve ser interpretado como solicitação de compra ou venda, oferta, convite, análise de valor mobiliário ou recomendação de qualquer ativo financeiro ou investimento, e não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Os interessados devem procurar aconselhamento financeiro conforme seus interesses antes de tomar qualquer decisão de investimento, sendo esta de sua exclusiva responsabilidade.

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